Fogo como ferramenta de gestão
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Fogo como ferramenta de gestão: da supressão à construção de paisagens resilientes

Introdução

Durante décadas, a gestão dos incêndios florestais em Portugal e no sul da Europa foi dominada por uma lógica simples: excluir o fogo da paisagem. Esta abordagem, centrada quase exclusivamente na supressão, teve resultados aparentes a curto prazo, mas revelou-se profundamente problemática a médio e longo prazo. A acumulação de combustível, o abandono rural, as alterações climáticas e a homogeneização da paisagem criaram as condições ideais para incêndios cada vez mais extensos, severos e difíceis de controlar.

Hoje, o debate técnico e científico é claro: o fogo não é apenas um problema a combater, é também um processo ecológico e uma ferramenta de gestão. Integrar o fogo de forma planeada e informada é um passo essencial para reduzir o risco, aumentar a resiliência da paisagem e reconciliar a gestão do território com as dinâmicas sociais e ecológicas.

Desenvolvimento

O problema não é apenas o fogo

Os grandes incêndios que marcaram os últimos anos não são fenómenos isolados nem exclusivamente climáticos. São o resultado de décadas de transformação do território. O abandono das atividades agroflorestais, a perda de mosaicos tradicionais, a expansão de manchas contínuas de combustível e a exclusão sistemática do fogo criaram paisagens altamente vulneráveis.

Nestes contextos, o fogo surge inevitavelmente, mas de forma descontrolada. Combater apenas os sintomas, sem atuar nas causas estruturais, conduz a um ciclo vicioso, ou seja, mais supressão, mais acumulação de combustível e incêndios cada vez mais extremos.

Fogo prescrito: o que é e para que serve

O fogo prescrito, também designado fogo planeado, consiste na aplicação controlada do fogo em condições meteorológicas, topográficas e operacionais específicas, com objetivos claros de gestão. Não se trata de “queimar por queimar”, mas de usar o fogo como ferramenta.

Entre os principais objetivos do fogo prescrito destacam-se:

  • Redução da carga combustível e da continuidade horizontal e vertical;
  • Criação de descontinuidades estratégicas na paisagem;
  • Manutenção de habitats dependentes do fogo;
  • Apoio a atividades agro-silvo-pastoris;
  • Diminuição da severidade de incêndios futuros.

A evidência científica mostra que áreas geridas com fogo prescrito tendem a arder com menor intensidade quando expostas a incêndios, facilitando o controlo e reduzindo os impactos ecológicos e socioeconómicos.

Fogo, biodiversidade e resiliência

Contrariamente à perceção comum, o fogo não é necessariamente inimigo da biodiversidade. Em muitas paisagens mediterrânicas, várias espécies e habitats evoluíram em interação com regimes de fogo frequentes, mas de baixa a moderada intensidade.

O problema surge quando estes regimes são substituídos por longos períodos sem fogo, seguidos de eventos extremos. O fogo prescrito permite reintroduzir perturbações mais próximas dos regimes históricos, promovendo diversidade estrutural, heterogeneidade da paisagem e maior capacidade de recuperação pós-fogo.

Paisagens mais diversas são, regra geral, paisagens mais resilientes. Isto significa não apenas menor risco de grandes incêndios, mas também maior estabilidade ecológica e maior capacidade de adaptação às alterações climáticas.

Dimensão social e territorial

A gestão do fogo não é apenas uma questão técnica. É também social, cultural, ecológica e política. Durante séculos, o fogo esteve integrado nos sistemas silvo-agro-pastoris que moldaram a paisagem mediterrânica, criando mosaicos diversos, produtivos e resilientes. Esses mosaicos (resultado da agricultura, do pastoreio e do uso regular do fogo) funcionavam como barreiras naturais à propagação dos incêndios e sustentavam economias locais e conhecimento acumulado. A perda progressiva destas atividades, associada ao abandono rural e à mudança de modelos produtivos, levou à simplificação da paisagem, à acumulação de combustível e à erosão dos saberes locais. Com isso, perdeu-se não só o valor ecológico e económico, mas também a capacidade de gestão ativa do território.

Reintegrar o fogo implica recuperar conhecimento local, capacitar técnicos e operacionais, criar enquadramentos legais adequados e promover uma comunicação clara com a sociedade. O fogo planeado exige confiança, planeamento e responsabilidade, mas oferece benefícios que vão muito além da redução do risco.

Do combate à gestão integrada

Os desafios atuais exigem um reajuste profundo da forma como olhamos para o fogo e para o território. Mais do que reagir a emergências, é necessário antecipar, planear e gerir a paisagem de forma integrada, reconhecendo que o risco de incêndio é construído ao longo do tempo.

Uma gestão eficaz passa por articular usos do solo, práticas de gestão, políticas públicas e conhecimento técnico e local, promovendo paisagens diversas, ativas e funcionalmente conectadas. Esta abordagem integrada permite reduzir a vulnerabilidade estrutural, aumentar a capacidade de adaptação e valorizar funções ecológicas, económicas e sociais da paisagem.

Reajustar a visão significa, portanto, passar de uma lógica centrada no combate para uma estratégia de gestão contínua do território, onde o fogo é uma variável a gerir e não apenas um inimigo a eliminar.

Conclusão

A aposta quase exclusiva na supressão do fogo dá uma sensação de controlo, mas não resolve o problema de fundo. Apagar incêndios não muda a estrutura da paisagem, não reduz combustível, não recupera mosaicos nem apoia a gestão ativa do território. Pelo contrário, permite que o risco se acumule ao longo do tempo, até que o fogo surja nas piores condições, com impactos cada vez mais graves.

Enquanto celebramos anos com pouca área ardida, ignoramos muitas vezes que esses períodos representam apenas risco acumulado. Os grandes incêndios não são acidentes imprevisíveis, mas o resultado direto dessa falta de intervenção continuada na paisagem.

O fogo continuará a fazer parte das paisagens mediterrânicas. A questão central não é se haverá fogo, mas como, quando e com que impactos. No fim, o verdadeiro risco não está no fogo que usamos, mas no fogo que recusamos usar.

Fontes

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