A Normalidade
Vivemos num tempo em que o risco deixou de ser uma interrupção da normalidade. É parte da própria normalidade. Alguns meses depois da primeira edição do curso, regressar a este tema significa regressar a um mundo ainda mais rápido, interdependente e difícil de interpretar. A aceleração da Inteligência Artificial, a instabilidade geopolítica, as alterações climáticas, a transformação das cadeias de valor, a pressão sobre recursos e infraestruturas e a mudança das competências profissionais mostram-nos que a incerteza já não pode ser tratada como uma variável periférica da gestão. Passou a ser uma das suas condições fundamentais. Mas há uma distinção que importa fazer: risco e vulnerabilidade não são a mesma coisa. O risco obriga-nos a pensar sobre acontecimentos, incerteza, probabilidades e consequências. A vulnerabilidade obriga-nos a olhar para dentro e perguntar até que ponto estamos expostos e preparados para responder. É precisamente nesta relação que começa uma análise verdadeiramente útil. Podemos conhecer uma ameaça e continuar vulneráveis. Podemos identificar dezenas de riscos e permanecer incapazes de decidir. Podemos construir matrizes sofisticadas e, ainda assim, ser surpreendidos pela realidade. Por isso, analisar riscos não pode significar apenas preencher grelhas, atribuir classificações ou produzir mapas coloridos. Significa compreender sistemas, relações e dependências. Significa questionar pressupostos. Distinguir sinais de ruído. Construir cenários. Identificar fragilidades. Avaliar consequências. E, sobretudo, transformar informação em decisões. É também por esta razão que, nesta segunda edição, quero colocar uma pergunta no centro das nossas aulas: Como podemos preparar-nos para aquilo que não conseguimos prever? Não existe uma resposta única. Existem métodos, referenciais e instrumentos que nos ajudam a pensar melhor. Recorreremos a abordagens qualitativas, semiquantitativas e quantitativas, à representação e cartografia do risco, à análise de vulnerabilidades, à construção de cenários e, sempre que adequado, aos referenciais normativos aplicáveis. Mas nenhum instrumento substituirá aquilo que deve estar antes de todos eles: capacidade crítica para compreender o contexto. A Inteligência Artificial torna esta questão ainda mais relevante. Dá-nos uma capacidade extraordinária para recolher informação, reconhecer padrões, simular cenários e apoiar decisões. Mas também novas dependências e vulnerabilidades. Ter mais informação não significa necessariamente compreender melhor. E decidir mais depressa não significa necessariamente decidir melhor. É aqui que a gestão do risco encontra um dos seus maiores desafios contemporâneos. O objetivo não pode ser criar organizações obcecadas em evitar o risco. Organizações incapazes de assumir risco também são incapazes de inovar, experimentar e transformar-se. Precisamos, pelo contrário, de organizações capazes de compreender a incerteza, reconhecer as suas vulnerabilidades, assumir riscos de forma consciente e aprender com aquilo que acontece. É essa cultura que procuraremos desenvolver nesta segunda edição. Porque talvez a grande competência perante um futuro cada vez mais incerto não seja aprender a prever tudo aquilo que poderá acontecer. Seja desenvolver a capacidade para perceber mais cedo, compreender melhor, decidir com consciência e adaptar mais depressa quando aquilo que não previmos finalmente acontecer.
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Criado por Paulo Sousa

